« As boas maneiras » – film fantastique brésilien

Entrevista com os diretores Juliana Rojas e Marco Dutra

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Cineastas graduados pela Universidade de São Paulo (USP), Juliana Rojas e Marco Dutra formaram uma parceria duradoura, com o suspense Trabalhar Cansa (2011) sendo o primeiro longa-metragem que dirigiram juntos. Os dois fazem parte do Filmes do Caixote, coletivo de cineastas que inclui nomes como Caetano Gotardo e Sérgio Silva, e também realizaram filmes solo de sucesso: Quando Eu Era Vivo (2014) e O Silêncio do Céu (2016), de Dutra, e Sinfonia da Necrópole (2014), de Rojas.

A dupla voltou a dividir a direção com o premiado As Boas Maneiras, que conta a história de Clara, uma enfermeira que, ao ser contratada como empregada por Ana, uma mulher grávida e reclusa, presencia fenômenos noturnos estranhos que acabam por mudar o curso de sua vida.

Conversamos com os dois sobre a experiência de criarem juntos, o trabalho com os elementos de gênero na trama e as possíveis conexões entre os Filmes do Caixote.

As Boas Maneiras talvez seja seu projeto mais arriscado e o roteiro esteve em desenvolvimento por anos. Durante o processo criativo, vocês estabelecem algum limite em relação aos temas que serão abordados, as mudanças de tom e as situações mais fantásticas do enredo?

Juliana e Marco: O limite é que não tem limite!

Vocês trabalham com a sugestão do lobisomem, mas também o mostram claramente em certos momentos. Como vocês decidiam quando mostrar ou não a criatura?

Juliana: Já passamos boa parte do filme sugerindo que havia algo de estranho com essa gravidez, então foi importante ser bem frontal na revelação. Primeiro vemos a criatura mais de longe e depois optamos por aproximar e fazer closes. Essas escolhas surpreenderam o pessoal dos efeitos pelo tipo de plano que queríamos fazer, que são planos com contato, e pela duração deles. Mas quisemos sugerir até construir um clímax, que é quando vemos o lobisomem pela primeira vez. Então sempre trabalhamos com a estratégia de esconder e suscitar a curiosidade do espectador para depois ter o prazer de mostrar a criatura.

Marco: Por exemplo, brincamos com pontos de vista quando a Clara tranca o Joel pela primeira vez no quarto. Até chegamos a filmá-lo no começo da transformação, mas preferimos focar na Clara percebendo o que acontecia no quarto. Então isso depende muito de qual personagem você quer estar junto naquele momento. Mas na cena do shopping e na cena final, que precisa de interação, precisamos de fato mostrar tudo.

Sempre soubemos que o filme se passaria num bairro central e na periferia de São Paulo. Nosso desafio foi construir ambos os lados de forma fantástica e fabular. Conversando com o diretor de arte Fernando Zuccolotto, decidimos que o prédio de Ana seria como um castelo, e a periferia de Clara como a floresta ao redor. Isso nos ajudou a encontrar o tom e as cores das duas partes do filme. No caso de As Boas Maneiras, nos inspiramos em filmes da Disney como Dumbo e A Bela Adormecida, nos filmes de Jacques Tourneur, como Sangue de Pantera e A Morta-Viva, e em O Mensageiro do Diabo, de Charles Laughton.

Ainda sobre o universo fabuloso de As Boas Maneiras, o filme é repleto de detalhes inesquecíveis, como a gata Teobalda, os animais bizarros na parede do apartamento de Ana, a sequência da festa junina e a engraçadíssima guarda do Shopping. Ao mesmo tempo, esses detalhes criam um universo bem próprio do filme. Assim, é um filme que faz reverência a vários cânones, mas que possui uma brasilidade bastante única. Como foi o processo de criação desses detalhes que constroem um universo tão próprio do filme e, ao mesmo tempo, tão brasileiro? São observações que vocês vêm juntando há muito tempo e que vieram naturalmente durante a produção do filme ou foram elementos que começaram a ser procurados/pesquisados a partir do início da produção?

Muitos dos elementos que você menciona apareceram durante a escrita do roteiro – como a personagem de Dona Amélia e sua gata Teobalda (inspirada na gata de Juliana, que tem o mesmo nome). O mundo do sertanejo universitário apareceu quando decidimos que Ana seria uma mulher de família rica do campo, nascida e criada em Goiás. Isso sugeriu muita coisa sobre seu figurino, sobre a decoração de sua casa e sobre o tipo de música que ela escuta. A festa junina também se relaciona com o campo, ainda que de maneira caricata. Nós mesmos dançamos quadrilha e frequentamos quermesses numa cidade enorme e caótica como São Paulo. Como o mito do lobisomem no Brasil tem muito a ver com o imaginário do campo, decidimos trazer todos estes elementos para o universo urbano do filme.

A escolha de elenco é uma das coisas mais afinadas no filme: a química entre a Marjorie e a Zuaa é hipnotizante e as crianças pareceram extremamente confortáveis com os temas abordados. Como foi a experiência de gravação com um elenco tão diverso?

Devemos muito ao elenco deste filme. Marjorie e Isabél foram parceiras criativas a partir do momento em que entraram no projeto. A química entre as personagens veio do processo de ensaios e das contribuições que elas fizeram a cada uma das cenas que compartilhavam. Com as crianças não foi diferente: mesmo com pouca experiência, Miguel, Felipe e Nina entenderam o tom do filme e mergulharam fundo na experiência. Eles adoravam fazer as cenas de terror e de lobisomem, e gostavam menos de fazer cenas “normais” de diálogo ou de briga. Trabalhamos com o preparador de elenco Marcio Mehiel, que ensinou as crianças que não é preciso sofrer de verdade para atuar uma cena de sofrimento. Foi um processo prazeroso e importante.

 

A junção do cinema de vocês dois é bastante harmoniosa nesse filme, principalmente no quesito musical. Marjorie Estiano cantando a música de ninar é tão hipnótico quanto Sandy cantando a música principal de Quando Eu Era Vivo. Enquanto isso, as cenas musicais cantadas ao longo de São Paulo lembram bastante o Sinfonia da Necrópole, principalmente pela graça com que elas são cantadas e por potencializarem o drama. Eu gostaria de saber um pouco sobre o processo criativo dos momentos musicais, de como vocês chegaram em um consenso. Principalmente na escolha do elenco, já que boa parte participa de cenas musicais decisivas para a narrativa.

Não colocamos limitações aos atores durante a escolha do elenco, mas sabíamos que a voz ia ser importante ao menos nas cenas com a canção de ninar (“Fome”). Esta era a única canção presente no roteiro desde o início. As outras foram surgindo quando decidimos que o filme certamente poderia se beneficiar de momentos musicais, ainda que não sendo inteiramente um musical. A “Canção da Travessia” e a “Canção da Espera” aparecem em cenas com forte carga dramática, em que sentimos a necessidade de um tipo diferente de expressão. Nós gostamos muito de música, inclusive de compor, e para nós é prazeroso trabalhar momentos musicais dentro de uma narrativa. As Boas Maneiras nasceu como um conto de fadas moderno, então nos permitimos fazer uso também dessa ferramenta.

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Há uma observação social bastante precisa no cinema de vocês. Em Trabalhar Cansa, o pessimismo e a frieza dominavam os corredores do supermercado que escondia séculos de injustiça social nas suas paredes. Em Quando Eu Era Vivo e O Silêncio do Céu, o terror é usado como meio para potencializar a distância entre membros de uma família, além de serem filmes frios e escuros. Em Sinfonia da Necrópole, um filme já iluminado e bastante engraçado, o universo quase lúdico mostra as estruturas sociais e a solidão que regem São Paulo. Portanto, As Boas Maneiras parece conciliar perfeitamente tudo que vocês vêm desenvolvendo ao longo de suas carreiras, já que há dramas familiares, fábula graciosa, análise da formação da sociedade brasileira e, principalmente, personagens solitários e laços improváveis em uma enorme São Paulo. Então, a concepção de As Boas Maneiras foi algo bastante pensando como projeto de retomada dessa parceria ou algo que veio através de um processo natural?

A ideia do filme surgiu quando ainda estávamos preparando o Trabalhar Cansa, e foi se desenvolvendo ao longo dos anos. Portanto, não planejamos o filme como uma mistura do que havíamos feito antes. Dito isso, é bom ver uma leitura como a sua, que identifica nossos temas recorrentes. Marco é nascido e criado em São Paulo, e Juliana veio de Campinas para São Paulo há quase vinte anos. Somos sensíveis às questões da vida na cidade, aos seus abismos e contradições, e também ao mundo das relações de trabalho e à vida doméstica. Talvez isso tudo siga aparecendo nos nossos próximos filmes.

***

Além da atração do seu cinema pelo cinema de gênero, é notável a intenção de uma canonização do filme-B, principalmente em As Boas Maneiras. Esse ideal é visível claramente ao longo da primeira metade, já bastante descrita como tourneuriana. Além de ser bastante essencial para a segunda metade, que me remete um pouco aos temas do cinema do Matarazzo: maternalidade e infância, mas continua investindo em elementos diretos do horror clássico, como visto, por exemplo, nos filmes da série do Val Lewton. Qual a importância de trazer essa revalorização do filme-B para as telas?

Nós nunca vimos os filmes de gênero como “B” porque crescemos sem esse tipo de hierarquia. Fomos frequentadores de videolocadoras, e tivemos contato com os diversos gêneros sem os filtros de bom/ruim, sofisticado/vagabundo, caro/barato. Talvez por isso sejamos muito abertos ao uso de ferramentas normalmente associadas aos filmes B ou trash. O cinema sempre foi uma arte popular, de comunicação em massa. O termo “filme B” surgiu para designar filmes menores e menos sérios, mas o tempo provou que muitos desses filmes eram mais atraentes e complexos do que os filmes “A”. Devemos muito ao cinema do Val Lewton, do Mojica, do Reichenbach. Para nós é natural voltar a estes filmes como forma de se inspirar.

Acostumados com filmes de orçamento ínfimo para os padrões do gênero, os diretores conquistaram uma verba maior graças à bem-vinda coprodução com a França. É de lá que vieram duas empresas de efeitos especiais para ajudar a construir o parto sangrento da criatura recém-nascida. “A gente aprendeu muito com os processos dessas empresas. Tivemos um bebê com face automatizada, que abria e fechava os olhos e a boca. A Isabél contracenou com ele e foi apaixonante. Uma experiência bem forte”, conta Dutra. Para o lobisomem já crescido, outra empresa entrou na produção para efeitos em CGI. Até o matte painting, técnica muito usada pelo mestre do suspense Alfred Hitchcock para representar …

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