Rio de Janeiro

“Como será o amanhã?

Responda quem puder

O que irá me acontecer?

O meu destino será como Deus quiser…” *

* Excerto do samba O Amanhã lançado pela escola de samba União da Ilha do Governador no Carnaval de 1979.

Arpoador, Rio de Janeiro, Brasil06-06-2015 fotografia: Marisa Cardoso
Arpoador, Rio de Janeiro, Brasil 06-06-2015 fotografia: Marisa Cardoso

Abençoado com uma das mais belas paisagens naturais do mundo e fundado pelos portugueses há 451 anos, o Rio foi-se adaptando à sua morfologia, trepando morros, empurrando o mar, crescendo em altura, esgueirando-se por túneis até à Barra da Tijuca. Foi-se também esticando, mais industrial, em direção a norte.
E no centro, criaram-se avenidas de modelo parisiense em que, por estes dias, velhos sobrados convivem com igrejas e palacetes à sombra de palmeiras ou de gigantescos arranha-céus, num pacato larguinho ou… no centro de ruidosas obras que exasperam os cariocas.

Está em curso uma revolução. Faltam menos de dois meses para a abertura dos Jogos e o Rio Olímpico vai mudando de pele. Esventram-se ruas para construir os carris do prático VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), que irá ser integrado no BRT (Bus Rapid Transit), um sistema articulado de corredores exclusivos para transportes públicos. Acrescenta-se a linha de metro entre a Barra da Tijuca e Ipanema para tirar dois mil carros da estrada em horas de ponta. Muda-se o sentindo do trânsito todos os dias, enlouquecendo os condutores. E os cariocas repetem como se fosse um mantra coletivo: “O prefeito promete que no dia 4 de agosto todas as obras serão entregues”.

Mas alguns dos projetos de requalificação são de longo curso. É o caso da Operação Urbana Porto Maravilha, que está a renovar a Região Portuária. As principais obras de valorização cultural estão concluídas. Trata-se do Museu de Arte do Rio de Janeiro, na Praça Mauá, e do seu vizinho, o visionário Museu do Amanhã.

Totalmente renovada e repensada, a Marina da Glória é outra das obras terminadas e em Jacarepaguá crescem a toda a velocidade os equipamentos do Parque Olímpico e a Vila Olímpica, onde ficarão instalados os atletas, que, após os Jogos, se transformará no exclusivo condomínio privado Ilha Pura.

Mas para além deste Rio que muda de cara a cada dia, há um outro, intangível, que mantém sempre o caráter. De toalha ao ombro e água de coco na mão ou afinando o violão para acompanhar a cerveja geladinha, o carioca repete “Fica frio, vai rolar…”, enquanto espera pelo seu dia de amanhã.

Quando aqui chegou fugida de Napoleão, nos alvores do século XIX, a família real portuguesa, acompanhada por dois terços da corte (11 500 pessoas), mudou para sempre o Rio de Janeiro. Na cidade, com 60 mil habitantes, dos quais 20 mil eram escravos, havia apenas 46 ruas e comia-se com as mãos. As ratazanas e os urubus passeavam-se livremente. O ambiente era medieval. Um horror para as damas europeias, com os seus decotes copiados da corte francesa e os seios todos picados pelos mosquitos. Dom João VI começou a fazer obra. A Casa da Suplicação, para a Justiça, a Escola de Medicina, para a Educação, a Gazeta do Rio de Janeiro, primeiro jornal do Brasil, a Biblioteca Nacional, com parte do espólio da Biblioteca Real de Lisboa, o Teatro São João. O príncipe importou até um grupo de castrati italianos. E criou o magnífico Jardim Botânico.

Entre a Idade Média e a sofisticação europeia, o Rio foi-se expandindo à base de explosivos que deitavam abaixo os morros para abrir a circulação do ar, segundo parecer dos urbanistas portugueses da corte.

Ao longo do século XIX e após a independência do Brasil (1822), a cidade e o comércio continuaram a crescer. Em 1888, a abolição da escravatura trouxe para o Rio milhares de emigrantes e de ex-escravos em busca de trabalho assalariado. A população duplicou para meio milhão de habitantes.

No início do século XX começou uma nova era, com os bondes a chegarem até Ipanema. Sob a égide da elite, que pretendia modernizar a cidade como Paris fizera no século anterior, e sob a batuta do prefeito Passos Pereira, nasceu a Avenida Rio Branco, rasgando o centro, e a famosa Avenida Atlântica em Copacabana. Por toda a cidade cresciam prédios, teatros, hotéis, galerias de lojas, clubes de futebol. Em 1912, foi inaugurado o Caminho Aéreo do Pão de Açúcar. Em 1916 foi gravado o primeiro samba da história. Expulsos dos cortiços do centro, cidadãos pobres mudam-se para os morros criando favelas. Em 1921, começou a ser planeada a estátua do Cristo Redentor. Todo o século XX é de transformação. Até aos anos 60 criam-se túneis, avenidas, parques, centros comerciais, estilos de vida… e a partir dos 70 começa o longo processo de extinção das favelas, reabilitando alguns bairros como Botafogo ou o Leblon.

No centro, ao longo dos anos 80 e 90, constroem-se arranha-céus, e para lá da Barra da Tijuca cresce uma nova cidade, de estilo americano, mas empoleirada na prancha de surf ou sobrevoando as praias de asa delta.

A pressão populacional e as desigualdades sociais são os grandes desafios deste Rio do século XXI. Uma metrópole imensa preparando-se para um futuro tão acelerado que já começou ontem.

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